quinta-feira, 9 de junho de 2011

João Gilberto em Barretos - Texto memorável!

JOÃO GILBERTO EM BARRETOS

Foi a 10 de junho de 1931 que ele nasceu. Portanto, amanhã, 10 de junho de 2011, ele faz 80 anos.
Foi em Juazeiro da Bahia, cidade hoje com quase 200 mil habitantes.
Seu nome todo é João Gilberto Prado Pereira de Oliveira.
Aos 18 anos foi para Salvador e, depois, para o Rio de Janeiro.
Seu ídolo foi o cantor Orlando Silva.
Em Barretos, quem se lembra bem de João Gilberto é o ex-radialista Pérsio de Piratininga Assunção Sen, que há 60 anos foi “speaker” da PRJ-8, depois comprou a emissora de rádio de Ituverava e, finalmente, em São Paulo, atuou no rádio e na televisão. Hoje, Pérsio mora em Barretos, podendo ser facilmente encontrado, circulando pelo centro da cidade. Costuma dizer que “veio ao mundo a passeio”.
Esta história tem 57 anos e João Gilberto, na época, tinha só 23 anos.
Vamos lembrá-la, contada pelo Pérsio:
 
João Gilberto

Em 1954, dois fatos importantes ocorreram para os barretenses. Nosso conterrâneo Francisco de Assis Bezerra de Menezes, o Bezerrinha, advogado e compositor, havia vencido o concurso para a escolha da música-hino do 4º Centenário da capital paulista, com o samba-exaltação “Perfil de São Paulo”.
Em agosto, no dia 25, Barretos ia comemorar o seu 1º Centenário e nossas autoridades formaram uma comissão encarregada de organizar as festividades que previam uma série de shows populares, entre outros eventos. A comissão era presidida pelo jornalista Ruy Menezes que convidou o então jovem Antonio Paulo Flosi, futuro jornalista e radialista e que mais tarde seria o introdutor da crônica social em nossa imprensa, para secretário administrativo da comissão cuja sede foi instalada no prédio onde é hoje a agência do Unibanco.
Entre as várias atrações contratadas, havia um conjunto vocal, outrora internacionalmente conhecido e que se chamava Anjos do Inferno. Aqui cabe um parênteses para explicar aos cinquentões de hoje que à época, desde a década de 30, influenciados pelo modismo norte-americano, surgiram no Brasil diversos conjuntos vocais, como Bando da Lua (que acompanhou Carmen Miranda em sua ida para os Estados Unidos em 39), Trigêmeos Vocalistas, Quatro Ases e um Coringa, Namorados da Lua, Vocalistas Tropicais, Os Cariocas e até um excelente conjunto de cegos: Titulares do Ritmo. De 46 e 51, os Anjos do Inferno excursionaram pela Argentina e México, participando de onze filmes, oito dos quais ao lado da grande estrela mexicana Ninon Sevilla.
 
Pérsio de Piratininga Assunção Sen

Na verdade, em 54 a formação inicial dos Anjos do Inferno já havia sido dissolvida, mas, um de seus componentes, chamado Roberto (conhecido como Paciência), havia ficado com o título do conjunto e, explorando o enorme prestígio do grupo, costumava reunir alguns músicos e saía em excursão pelo país.
Os Anjos do Inferno chegaram a Barretos às vésperas do dia 25, provavelmente no dia 23, e no dia 24 de agosto o presidente Getúlio Vargas acabou com a festa metendo uma bala no peito. Como não podia deixar de acontecer, o país virou uma confusão, ficou tudo parado, inclusive os bancos e, aí, cadê o dinheiro para cobrir os compromissos assumidos? Os componentes dos Anjos do Inferno, “duros” como os artistas daquele tempo, não tinham como pagar o Hotel Central, onde estavam hospedados e que era de propriedade do seo Amélio Monsef, pai dos irmãos Orlando e Osvaldo, e por essa razão, enquanto não receberam o que lhes era devido, ficaram por aqui uns 15 dias.
O Paulo Flosi, que era a figura aglutinadora de um grupo de jovens do Grêmio Literário e Recreativo e já então muito chegado a tudo que se referia à arte da Comunicação e valendo-se da sua condição de secretário da Comissão dos Festejos, havia se aproximado dos Anjos. Percebendo as dificuldades financeiras do grupo vocal que não tinha dinheiro nem para o cigarro, reuniu seus amigos e propôs que organizássemos alguns shows no Grêmio para arrecadar uns trocados que amenizassem a situação, o que foi feito com sucesso e sedimentou uma efêmera amizade.
Esse papo todo foi para que as pessoas se situassem no tempo para tomar conhecimento de um fato que, não sei porquê, o Paulo Flosi nunca divulgou como merecia.
Foi o seguinte: o crooner, ou voz principal dos Anjos do Inferno, era um jovem bahiano, dono de uma voz pequena, mas extremamente afinada e romântica. Porém, o cidadão já era, naquele tempo, dos mais complicados. Não saía antes do pôr-do-sol; ficava o dia todo dedilhando seu violão; perfeccionista, não admitia barulho quando cantava; de pouca conversa, era, enfim, uma pessoa difícil que beirava a antipatia, mas, como cantava...
Não sei se a idéia partiu do Paulo Flosi ou se foi uma iniciativa do cantor em homenagear o Bezerrinha com uma seresta. E lá fomos nós, numa enluarada noite de agosto ou setembro acompanhar a serenata. O cantor bahiano exigiu que ficássemos em absoluto silêncio, a uns trinta metros de distância da casa de Bezerrinha, o que fizemos postando-nos na esquina da rua 14 com a avenida 25.
 
E aí, estimada Lygia Guerra Baezerra, talvez você não se lembre, mas com certeza não sabe que foi uma das poucas brasileiras a serem homenageadas com duas das mais lindas de nossas músicas , Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda e Curare na voz daquele que, a partir de julho de 58 impulsionaria de vez o gênero bossanovista com a gravação de Chega de Saudade – JOÃO GILBERTO, o gênio da Bossa Nova.
 
Antonio Paulo Flosi
 
José Vicente Dias Leme. Da Academia Barretense de Cultura. 

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