sexta-feira, 8 de março de 2013

Vaticano, estado sob suspeita ou igreja em crise?


  O JOGO DE PODER POR TRÁS DO VATICANO
Como um escândalo de corrupção, lavagem de dinheiro e intrigas pelo poder dividiu a cúpula da Igreja. E por que ele será uma peça-chave na eleição do próximo papa
“O papa vai morrer daqui a um ano”, teria dito o cardeal italiano Paolo Romeo numa viagem à China. Foi há um ano e quatro meses. Bento 16 não está morto, claro, mas que seu posto está vago, está. Essas palavras saíram numa carta publicada em janeiro do ano passado pelo Il Fatto Quotidiano, um jornal de Roma.
Segundo os editores, a carta tinha sido entregue ao papa por testemunhas da declaração. Logo que saiu a notícia do “plano para matar Bento XVI”, o cardeal Romeo desmentiu: “Isso é algo tão fora da realidade que nem deveria ser levado em consideração”, disse. E ficou por isso mesmo. O tal documento passou a ser considerado uma farsa.
Mas numa coisa esta história está indiscutivelmente certa: existem intrigas pesadas dentro do Vaticano. E a tese mais aceita hoje é que, sim, elas colaboraram para que o papa renunciasse.
Uma prova dessas intrigas está em outra carta que foi parar na imprensa ano passado. Desta vez, uma que o Vaticano assumiu ser autêntica.
Foi uma mensagem escrita em 2011 e endereçada ao cardeal Tarcisio Bertone, o todo-poderoso secretário de Estado do Vaticano. O remetente é o arcebispo Carlos Maria Vigano, então um dos responsáveis pela administração da Santa Sé.
Vigano acusa colegas de terem superfaturado contratos de obras no Vaticano, o que teria causado um prejuízo de 2 milhões de euros aos cofres da Igreja. No final, o arcebispo pede para não ser transferido, de modo que possa continuar seu trabalho de saneamento das contas.
E Bertone fez o quê? Transferiu o arcebispo. Hoje Vigano é embaixador do Vaticano em Washington – notoriamente a contragosto. O Vaticano silenciou sobre o assunto. Mas não dá para negar: o documento indica que Bertone pode ter protegido o esquema.
Isso jogou gasolina num incêndio que já tinha começado em 2010. Foi quando a Justiça italiana bloqueou 23 milhões de euros das contas da Igreja, acusando o Vaticano de “não saber explicar” a origem desse dinheiro.
O banco do Vaticano (cujo nome oficial é IOR – Instituto de Obras Religiosas) acabou sob suspeita de lavagem de dinheiro. A grana de eventuais esquemas de corrupção entraria “suja” no IOR, sem origem legal. E sairia “limpa”, como se fosse dinheiro que a Igreja arrecadou de doações de fiéis, por exemplo.
Mas calma: o banco do Vaticano nunca foi acusado formalmente de lavagem de dinheiro. A Justiça até liberou os € 23 milhões em troca de uma promessa do banco: tornar suas ações transparentes, abrindo seus livros-caixa para auditores sempre que solicitado. E o caso morreu aí. Mas renasceu depois da carta de Vigano: ela indicava que havia pelo menos uma fonte de dinheiro sujo dentro da Igreja.
Depois piorou. Começaram a pipocar mais documentos internos do Vaticano, acusando Bertone e seus aliados de sabotar as reformas para dar transparência ao banco do Vaticano.
O caso acabou conhecido como “Vatileaks”. E deixou uma suspeita: quem estaria por trás de tantos vazamentos? Os vaticanistas (jornalistas que cobrem o dia a dia da cidade-Estado) não têm dúvida: foram cardeais que queriam derrubar Tarcisio Bertone.
Ratzinger nomeou Bertone secretário de Estado em 2006. E desde lá o italiano coleciona inimigos na cúpula da Igreja. Seus detratores o criticam por não ter preparo para o cargo – ele não fala inglês nem francês. E, principalmente, por suas armações políticas.

 O jogo mais notório de Bertone foi uma manobra para tentar garantir que o sucessor de Bento XVI seja um italiano – ou ele próprio. Quem elege o Papa são os cardeais com menos de 80 anos. E dos 18 cardeais menores de 80 nomeados recentemente, sete são italianos. Seis, inclusive, trabalham com Bertone.
Não é à toa que, no discurso que deu após a renúncia, o papa falou em uma “divisão no corpo eclesial”. E que essa divisão “deturpava o rosto da Igreja”. Uma amostra dessa cisão, por sinal, envolveu um dos favoritos para a sucessão de Bento XVI, o cardeal ganês Peter Turkson.
Em 2011, ele soltou um memorando para a imprensa defendendo a criação de uma autoridade financeira global para fiscalizar países e bancos. Bertone não gostou. Segundo vaticanistas, ele disse que o memorando ia contra a posição do papa sobre o assunto. E deixou claro: dali em diante, nenhum documento iria para a imprensa sem a autorização da Secretaria de Estado. Turkson reagiu mostrando um trecho da última encíclica de Bento 16, em que o papa fala sobre a urgência de “uma verdadeira autoridade política mundial”.
Turkson não é um cardeal qualquer. É um dos cabeças da Igreja, chefe do Conselho Pontifício pela Paz e Justiça, uma das “diretorias” mais importantes do Vaticano. Por isso está entre os favoritos – e também por ser negro e africano, o que daria um gás no carisma da Igreja.


Em suma, é uma figura com poder de sobra para atrapalhar os planos de Bertone. E se uma figura dessas vem falar em “autoridade para fiscalizar bancos” justamente com o caso da lavagem de dinheiro pegando fogo, é fácil interpretar como provocação. E quando qualquer coisa pode ser entendida como provocação, estamos numa crise sem volta. Uma crise que pode ter dado aval à decisão de Joseph Ratzinger: se ele perdesse a lucidez antes da morte, deixaria o Vaticano sem comando exatamente num dos momentos mais conturbados de sua história.
Por outro lado, é esse caldeirão de intrigas que deve determinar o resultado do próximo conclave. Desta vez, a fumaça que tradicionalmente sai da chaminé da Capela Sistina indicando a eleição de um novo papa terá um significado bem menos figurativo.


Alexandre Versignassi
revista Superinteressante

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